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Flores, dores, e cores - cenas de um acompanhamento terapĂȘutico

Atualizado: 7 de nov. de 2025



Por Diego Deneno Perez e Philip Alexander GalvĂŁo McCormack

 

[chega o café na mesa, dois homens sentados de frente um para o outro conversando]


Cosme - Mas me conta aĂ­ a cena que vocĂȘ tĂĄ lembrando!


Floriano - Lembrei de quando namorava Jacinto em 2017, que Elza jĂĄ tava nos Ășltimos ĂĄlbuns mas nĂŁo parava de fazer show, e esgotava em segundos. Lembro que eu ficava na frente do computador pra comprar, na noia, na fila de espera. Consegui 2 ingressos e Jacinto conseguiu 2 tambĂ©m. Chamamos minha irmĂŁ, galera, ninguĂ©m podia. AĂ­ falei “vamo vender na porta pelo mesmo preço nĂ©?” E aĂ­ eu vi que tinha que ser, porque na hora apareceu uma mĂŁe e uma filha de 16 ou 17 anos - a mĂŁe com a cara fechada por nĂŁo ter ingresso, a filha gritando desesperada pra ver se alguĂ©m tinha.


Perguntaram por quanto a gente vendia, oferecemos o mesmo preço; a filha quis, mas a mĂŁe perguntou se era mĂșsica apropriada, “porque canta de Exu, canta umas coisa aĂ­, serĂĄ que Ă© apropriado pra menina?” E aĂ­ a gente falou que Ă©, mas tambĂ©m pensamos que era necessĂĄrio pra mĂŁe. E foi um show do caralho, que ela militou pra caralho, botou instrumentos e dançarinos em referĂȘncia a OrixĂĄs, foi muito bom... E eu ficava imaginando sĂł a cara dessa mĂŁe.


Cosme - Eu vi um show dela no palco externo do AuditĂłrio do Ibirapuera, bem foda mesmo. Mas entĂŁo vamo lĂĄ, recuperar essa caminhada que a gente tem feito. Capuccininho e suquinho de laranja na mĂŁo, lembrando de experiĂȘncias de Elza Soares



Floriano - E depressĂŁo.


Cosme - DepressĂŁo profunda. Mas entĂŁo, a ideia Ă© a gente poder recuperar nossa trajetĂłria compartilhada: eu como Acompanhante TerapĂȘutico (AT) e vocĂȘ como acompanhado.


Floriano - “Doidjo”.


Cosme - “Doidjo”
 E aĂ­ eu peguei uns momentos cronolĂłgicos pra poder organizar um pouquinho o papo, começando pelas primeiras impressĂ”es que a gente teve um do outro. [risada nervosa de Floriano]  É, bastante coisa. E eu acho que primeiras impressĂ”es dizem de muitas coisas, nĂ©? Seu AT anterior encaminhou seu caso pra mim, e aĂ­ a gente começou a conversar por mensagem pra marcar um primeiro encontro.


Demorou pra acontecer, mas a gente se conheceu no Parque da Água Branca. E aĂ­ a gente ficou uns meses sem se ver. Depois vocĂȘ lembrou de mim e me chamou. VocĂȘ consegue me contar um pouco desse primeiro momento?


Floriano - Olha
 do primeiro momento sĂł tenho fragmentos, porque eu tava virado e cheirado hĂĄ uns 2 dias. Te pedi pra ser num lugar mais perto de casa, mas vocĂȘ falou pra gente manter no parque, aĂ­ pensei “eu vou lĂĄ, vou atrĂĄs dessa bicha, preciso parar de usar droga, preciso aceitar ajuda de todo que Ă© lugar, eu vou.”


Peguei um Uber, eu tava muito louco, muito louco... E a gente ficou conversando, eu nĂŁo lembro muita coisa, mas lembro principalmente do sentimento de acolhimento. Eu acho que eu tava bebendo, e em algum momento vocĂȘ fez uma intervenção
 Eu quis cheirar na sua frente, e vocĂȘ falou pra eu nĂŁo fazer isso, pra eu ir no banheiro, algo assim.


Cosme - VocĂȘ pediu pra eu ir no banheiro com vocĂȘ pra vocĂȘ usar, e aĂ­ eu falei “ó, vocĂȘ usar Ă© uma escolha tua, mas eu nĂŁo vou te acompanhar.”


Floriano - Minha memĂłria, que fique claro, ela Ă© meio bagunçada. Eu nĂŁo lembro muito, lembro de estar muito louco e falando um monte de bosta, mas de sentir acolhimento no olhar, no sorriso, alĂ©m de pensar “porra se esse cara nĂŁo desistir hoje, ele nĂŁo desiste mais.” AĂ­ quando vocĂȘ foi embora eu pensei “acho que nunca mais ele vai aparecer
” Vai dizer “desculpa, a agenda lotou agora do nada
”


Cosme - Nem sei se vocĂȘ lembra, mas nesse dia vocĂȘ perguntou no meio da conversa “jĂĄ tĂĄ procurando a saĂ­da de emergĂȘncia?”


Floriano - NĂŁo lembro de quase nada que eu falei nesse dia, sĂł que eu falei bastante, tĂ­pico de quando tĂŽ cheirado
 Lembro que tava muito calor e eu tava tomando uma cerveja ou caipirinha. AĂ­ depois de um tempo vocĂȘ precisava ir embora, e eu nĂŁo conseguia voltar pra casa, porque eu tava sem crĂ©dito no celular, sem dinheiro no cartĂŁo, sem dinheiro em espĂ©cie, e eu pensei “PQP vou ter que voltar a pĂ© atĂ© minha casa nesse estado, sol rachando na cabeça, eu no limite das minhas forças.”


Sentei na calçada e fiquei pedindo carona. Eu tava viradasso nĂŁo sei hĂĄ quanto tempo
 Tava com a cara mais podre possĂ­vel, fedendo, obviamente ninguĂ©m ia parar pra me dar carona - uma menina do Oxxo que tinha lĂĄ do lado me salvou, me emprestou a internet do celular dela pra chamar um Uber. Agradeço essa menina atĂ© hoje mentalmente, nunca mais vi ela. AĂ­ eu consegui chegar em casa, e foi o limite mesmo, esgotei naquela sessĂŁo de usos interminĂĄveis; aquele foi o fim, eu tava exausto, calor da porra



Eu lembro de ter falado “puta que pariu mais uma pessoa super gente boa que tem um papo mĂł legal, tem um olhar e voz de acolhimento, de nĂŁo-julgamento, Ă© mais uma pessoa que vai virar pra mim e falar que teve um imprevisto familiar, que vai indicar alguĂ©m, que a agenda lotou do nada
 mais um que eu nĂŁo deixo entrar na minha vida, antes mesmo que dĂȘ ruim organicamente eu jĂĄ nĂŁo deixo entrar.” Fui dormir depois de fumar um K9 pra desligar o cĂ©rebro, e isso Ă© o registro que eu tenho do nosso primeiro encontro.


Cosme - E aĂ­ rolou a overdose na mesma semana, 1 ou 2 dias depois. VocĂȘ tinha ido pro aniversĂĄrio da sua mĂŁe no interior.


Floriano - Eu consegui a proeza de ter uma overdose no aniversĂĄrio da minha mĂŁe. Depois fui passar 3 meses no Instituto de Psiquiatria da USP (IPq).


Cosme - E como foi lĂĄ?


Floriano - Ah, foi um tampa buraco. Foi combinado que eu ia ficar 3 meses lĂĄ, e eu fui enganando do jeito que eu sempre faço
 “Ai que legal, esse grupo me abriu tanto a mente, me esclareceram tanta coisa, nunca mais vou usar nada na vida, agora o cĂ©u se iluminou pra mim, nossa eu tĂŽ evoluindo tanto, porque agora eu me arrependo, eu choro de arrependimento, e eu vou pedir perdĂŁo para cada um, porque vocĂȘs fizeram eu perceber o quĂŁo errado eu estava
” E eles acreditando.


Lembro que nĂŁo sabiam em qual enfermaria me enfiar, circulava em vĂĄrias. Ficava essa discussĂŁo entre a galera, “de quem que Ă© o caso, o que a gente faz com esse moleque?” NinguĂ©m sabia onde me por, e ninguĂ©m queria assumir o BO, porque cada ala tem suas restriçÔes e responsabilidades, necessidades
 E misturou tudo, ninguĂ©m queria assumir o BO de pensar “se fizer tal conduta aqui, vai ser o oposto da conduta de lá”. Foi uma bagunça, 3 meses de bagunça. Mas aĂ­ eu fiz meu fake e saĂ­. E no mesmo dia jĂĄ liguei pro dealer.


Cosme - Lembro bem. E quando vocĂȘ tava pra sair de lĂĄ, falaram que vocĂȘ precisava de um AT, e vocĂȘ lembrou de mim. AĂ­ a gente se viu alguns dias antes da alta, que vocĂȘ foi pintar o cabelo.


Floriano - Foi muito interessante
 Primeiro conheci a psiquiatra, Rosa, gostei dela de primeira, meu pai tambĂ©m gostou dela; minha irmĂŁ atĂ© zoou, “pera, os dois entraram num consenso? NinguĂ©m se mexe!” Ficou ela de psiquiatra, que me indicou um psicĂłlogo comportamental, que desde o inĂ­cio tava claro que nenhum de nĂłs dois se suportava. Eu odiava ele, ele me odiava - e a gente admitiu isso no final, foi legal. Claramente nĂŁo tava rolando, sĂł insisti porque confiava na indicação da Rosa, mas depois de um tempo



E onde que vocĂȘ entra nisso? A necessidade de um AT veio, e a primeira coisa que a gente fez foi pedir indicação desse psicĂłlogo. Fiz um primeiro encontro com essa indicação, a gente foi fumar um cigarro e dar uma volta na quadra, e ele era chato pra caralho, que nem o psicĂłlogo, bem engomadinho
 chato chato chato. Eu perguntei pra ele como seria o trabalho, porque era muito novo pra mim - e de fato era, nunca tinha tido AT por um tempo, o que tentou antes de vocĂȘ pulou fora rĂĄpido. E ele falou, seguindo a linha comportamental, “vocĂȘ tem transtorno alimentar, vocĂȘ tem adicção em drogas, tem depressĂŁo e ansiedade, tem tendĂȘncias suicidas, e a cada semana a gente vai trabalhar uma dessas coisas atĂ© tirar todas.”


Respondi “legal
 Como?” E ele respondeu que iria criar metas a cada semana. Eu pedi exemplos, e ele falou coisas bizarras do tipo “quando der vontade de vomitar, vai pra lugar que não tenha privada, vai pra rua ou algo assim”. Era umas metas muito idiotas
 Como se vontade de sentar se resolvesse atirando as cadeiras pela janela.

Cosme - Ah, mas vocĂȘ nĂŁo tem transtorno de sentar?


Floriano - NĂŁo
 depende. Depende do que estamos falando [risos]. Mas foi isso, achei as metas idiotas, sem sentido pra mim, e eu sabia que ia sacanear com ele e comigo e recusei. E aĂ­ lembrei dessa figura que me suportou louco
 E eu pensei “pĂŽ, ele jĂĄ viu o pior de mim, por que a gente nĂŁo tenta?” E aĂ­ eu fui pintar o cabelo, porque me deu um surto borderline de autoestima, acompanhado de um AT do IPq
 SĂŁo pĂ©ssimos os ATs de lĂĄ.


Cosme - Ele era um fofo!


Floriano - É relativo, nĂ© [risos]. Mas zero preparo, enfim
 VocĂȘ falou que ia junto, eu disse que jĂĄ tinha acompanhante, vocĂȘ disse que ia mesmo assim pra gente se ver. E o que me marcou muito desse dia foi que na hora de descolorir o cabelo, o pano apertado demais no pescoço pra nĂŁo manchar a roupa, eu tendo uma crise de falta de ar e um ataque de pĂąnico violento demais
 O outro AT com o meu Rivotril, eu falando pra ele me dar muitas gotas, ele todo assustado com a minha reação
 VocĂȘ com calma falou pra gente fumar um cigarro lĂĄ fora. Eu tava tĂŁo fora de mim que topei, e quando vi passou 10min e a gente tava lĂĄ fora conversando e fumando, eu tinha esquecido da crise de pĂąnico e nem tomei o Rivotril
 Isso me marcou muito.


Cosme - Eu lembro dessa cena, nĂŁo sabia que tinha te marcado tanto.


Floriano - DaĂ­ eu fui vendo que vocĂȘ aguentava o tranco, nĂŁo sei se isso Ă© bom pra vocĂȘ
 Espero que vocĂȘ tenha uma analista que te aguente bem, porque nĂŁo deve ser fĂĄcil suportar os doidos como eu. Eu tava hĂĄ anos tomando doses cavalares de Rivotril, e quando vocĂȘ me fez esquecer da ansiedade simplesmente conversando e fumando um cigarro, eu pensei “tĂĄ escolhido”. VocĂȘ me conquistou naquele dia, e aqui estamos nĂłs
 Mas Ăł, uma dĂșvida, vai ser sĂł o meu lado ou vocĂȘ vai entrar no papo? Porque tĂĄ virando um monĂłlogo!


Cosme - Eu ia falar disso agora, tava deixando correr, mas eu jĂĄ ia falar as minhas impressĂ”es, e atĂ© meio que inverter os papĂ©is, que se vocĂȘ tiver complementos, perguntas, vai fazendo! Pegando essas partes que vocĂȘ jĂĄ falou, eu vou contar do meu lado como foram as minhas sensaçÔes.


Floriano - Adoro.


A gente tava hĂĄ algumas semanas tentando marcar, vocĂȘ se esquivando direto, e eu resolvi ser mais insistente, mais chato
 Foi muito louco, porque minha primeira sensação foi “nem conheço o cara pra me permitir ser chato e insistente”. Eu tive que pensar um tanto antes de falar “vou meter esse louco”.

Cosme - Começando pelo primeiro encontro, lĂĄ no parque
 A gente tava hĂĄ algumas semanas tentando marcar, vocĂȘ se esquivando direto, e eu resolvi ser mais insistente, mais chato
 Foi muito louco, porque minha primeira sensação foi “nem conheço o cara pra me permitir ser chato e insistente”. Eu tive que pensar um tanto antes de falar “vou meter esse louco”. VocĂȘ tinha dito que tava ansioso, pra deixar pra outro dia, e eu disse que eu jĂĄ tava a caminho e nĂŁo rolava vocĂȘ me deixar no vĂĄcuo. VocĂȘ ofereceu pagar Uber pra eu ir atĂ© sua casa, eu falei que tava indo pro parque e que vocĂȘ ia me encontrar lĂĄ e nĂŁo ia furar de novo; vocĂȘ aceitou.


Eu fiquei bem preocupado, porque vocĂȘ chegou muito louco, horĂĄrio do almoço, e jĂĄ pediu um copasso de caipirinha. [risos, chega um espresso para Floriano]


Floriano - E olha só, trocamos por um copasso de café! [mais risos]


Cosme - E tambĂ©m como foi a primeira vez que eu te vi, me chamou a atenção o quĂŁo magro vocĂȘ tava.


Floriano - VocĂȘ acha que eu tava mais que agora?


Cosme - Sim
 pelo menos na minha memĂłria, foi uma coisa bem marcante, mas sem julgamento de valor. Foi numa pegada mais de querer entender se nutricionalmente vocĂȘ tava saudĂĄvel, se vocĂȘ era naturalmente um cara muito magro.


Floriano - E agora vocĂȘ falando, me veio um pensamento do tipo “serĂĄ que eu tĂŽ gordo agora, e preciso emagrecer urgente e ninguĂ©m me fala?” Mas prossiga.


Cosme - Acho que esse Ă© um papo importante da gente voltar depois. Mas entĂŁo, aĂ­ a gente entrou no parque, vocĂȘ tinha levado uns pinos e queria cheirar no meio do parque, me perguntou se ia dar ruim e se iam reparar. Falei que iam reparar com certeza, entĂŁo vocĂȘ falou que queria ir no banheiro usar e pediu pra eu ir junto. Eu disse que nĂŁo, que esperaria no banco onde tava sentado. VocĂȘ insistiu porque nĂŁo queria ir sozinho, mas foi, e voltou um pouco menos ansioso. A gente deu uma caminhada, sentou e conversou. Lembro de vocĂȘ falando sobre ser um alienĂ­gena. E foi muito legal, porque vocĂȘ falava de um jeito que nĂŁo deixava claro se era metĂĄfora, tava falando de uma forma muito literal.


Floriano - Nunca foi metĂĄfora.


Cosme - Mas vocĂȘ sabe que nasceu da sua mĂŁe e seu pai.


Floriano - Tá, mas
 Bom, continua.


Cosme - Naquele papo, era um relato autobiogrĂĄfico de alguĂ©m que foi depositado no planeta Terra de outro lugar, nĂŁo sabe onde, e foi muito real, muito vivo. Eu pude de imediato entender um pouquinho de como vocĂȘ se sentia, e a gente ficou falando de ser alienĂ­gena, as vĂĄrias formas de ser. Eu te contei sobre como tambĂ©m me sinto alienĂ­gena tambĂ©m de muitas formas, diferentes das sua
 Desse se sentir Ă  margem, os desencaixes. Eu lembro que vocĂȘ ficou bem surpreso de escutar eu falando isso. E depois desse primeiro dia, vocĂȘ contou que ia ver sua mĂŁe, e eu tava botando fĂ© que a gente ia se falar de novo quando vocĂȘ voltasse do interior.


Floriano - Aconteceu! [risos] NĂŁo do jeito que a gente esperava, mas aconteceu.


Cosme - E foi doido, porque era vocĂȘ internado, sem ter firmado nada com vocĂȘ
 Mas eu abracei uma função de pensar “esse cara nĂŁo tĂĄ bem, e eu preciso fazer alguma coisa, mesmo que eu nĂŁo esteja formalmente vinculado, preciso fazer alguma coisa pra me certificar de que ela tĂĄ sendo cuidado.” Tive umas conversas com sua mĂŁe, sua irmĂŁ e sua analista, pra tentar organizar minimamente teu acompanhamento - falei pra elas que eu nĂŁo tava pensando em ser escolhido pra assumir o caso ou nĂŁo, sĂł queria ajudar a coordenar esse primeiro momento e a pensar o que daria pra fazer. E elas tambĂ©m tavam super recolhidas, claro, estranhando um cara querendo ajudar assim do nada - e sua famĂ­lia nĂŁo tinha contato com sua analista, nĂŁo sabiam da minha indicação atravĂ©s dela. Me fiz disponĂ­vel, vi que vocĂȘ jĂĄ tava protegido e assistido num serviço de saĂșde e me retirei.


Pra minha surpresa, vocĂȘ entrou em contato. Eu fiquei bem feliz, porque foi um primeiro encontro muito marcante, acho que dos 2 lados nĂ©? Talvez eu lembre um pouco mais, mas marcante dos 2 lados. Pensei “poxa, esse Ă© um cara que rola de desenvolver uma profundidade e complexidade nas conversas - nĂŁo vai ser frio, protocolar ou difĂ­cil de conviver, a conversa fluiu fĂĄcil.” Quando vocĂȘ veio falar comigo fiquei atĂ© lisonjeado de ter passado 3 meses e vocĂȘ me buscar pra te acompanhar.


Minha primeira impressĂŁo de como as coisas tavam estruturadas no momento que vocĂȘ sai do IPq era que as coisas tavam organizadas pra acontecer de um jeito muito protocolar, na pegada de metas, quase de esconder privada pra nĂŁo ter onde vomitar, sabe? E isso me preocupou. Na Ă©poca eu puxei esse papo com Rosa e com Yuri (o psicĂłlogo que te acompanhou logo depois da alta), de dizer “gente, eu entendo a importĂąncia da gente ter uma proteção Ă  vida dele, sĂł que
”


Floriano - “... ele precisa ter uma privada”. [risos]


Cosme - Isso! Eu falei “cara, Ă© uma pessoa que tem uma vida que quer ser vivida! Como Ă© que a gente vai mediar isso?” EntĂŁo foi uma mistura, uma identificação legal com vocĂȘ de imediato, uma preocupação grande, uma vontade de trabalhar junto, mas tambĂ©m um desconforto de dizer “pera aĂ­, como isso pode acontecer de um jeito responsĂĄvel e humano? De misturar esses dois polos, que nĂŁo deveriam ser polos.” E cara, vocĂȘ ter saĂ­do do IPq e no mesmo dia ter entupido a cara de droga nĂŁo foi uma surpresa pra mim, nem me preocupou tanto, acredite ou nĂŁo.


Floriano - Acho que não foi surpresa pra ninguém, né?


Cosme - Mas nĂŁo me preocupou. O que tava me preocupando mais naquele momento era justamente o discurso, sempre te falo que odeio essa palavra “recaĂ­da”, o discurso da recaĂ­da
 “recaiu, voltou pra estaca zero”. Vai tomar no cu, sabe? É parte de um processo, saca? TĂĄ bom, vocĂȘ usou, beleza, vida segue. Desse primeiro momento da relação, acho que Ă© isso.


Floriano - SĂł me preocupo se engordei muito de lĂĄ pra cĂĄ.


Cosme - NĂŁo. Naquele dia que eu te conheci, a minha percepção era “o corpo dele aguenta ficar de pĂ© sozinho?” E agora vocĂȘ continua bastante magro, sĂł que agora eu nĂŁo me pergunto mais se vocĂȘ consegue ficar de pĂ© sozinho. Mas Ă© isso, uma angĂșstia que eu sei que te pega bastante e que a gente continua olhando pra ela.


Floriano - Sim



Cosme - Mas entĂŁo, aĂ­ a gente entra num momento intermediĂĄrio do nosso processo, que abarca algumas coisas
 O tempo que vocĂȘ ficou em casa, a primeira estadia no Residencial TerapĂȘutico, e sua volta de novo pra casa.


Floriano - VocĂȘ tem a cronologia da minha vida melhor que eu! [risos]


Cosme - Falei pra vocĂȘ que eu anoto as coisas! Foi muito legal recuperar as anotaçÔes desse Ășltimo ano
 Mas entĂŁo, como que Ă© tua percepção desse perĂ­odo que vocĂȘ ficou em casa depois da internação no IPq, e esse primeiro mĂȘs no Residencial?


Floriano - Naquela Ă©poca eu nĂŁo queria parar de jeito nenhum, nĂŁo via sentido em parar, tava muito envolvido, muito entregue
 nĂŁo tinha porque parar. Pensei “bom, jĂĄ fiz meu teatro, tĂĄ Ăłtimo, agora bora.” AĂ­ a Rosa vai plantando a sementinha do Residencial na minha cabeça, e eu vou negando, atĂ© o ponto que eu penso que nĂŁo aguento viver com, mas tambĂ©m nĂŁo aguento viver sem a droga. Era desesperador nas duas situaçÔes. Entrei em surto, falei que precisava de ajuda. Veio um lapso de consciĂȘncia depois de dias virado, drogado, sem comer, enchendo a cara, entĂŁo liguei pro Residencial.


O cara que atendeu ficou 3h comigo no telefone, aguentando este ser, porque eu tava loucasso e falei um monte de coisa. Ele falou do espaço do Residencial, ficou me influenciando a ir, ajudando a criar coragem, aĂ­ eu falei “quer saber, eu vou nessa merda”, porque eu tava em desespero. NĂŁo tinha outra opção, eu nĂŁo queria morrer, nĂŁo queria me matar, porque seria muito fĂĄcil
 DĂ©cimo terceiro andar, eu podia ter pulado, mas eu nĂŁo queria morrer. Eu podia ter exagerado mais na droga e tido uma overdose proposital? Podia, mas eu nĂŁo queria morrer, eu queria viver. Mas eu nĂŁo queria mais viver com a droga, e eu nĂŁo sabia viver sem ela.


Catei minhas coisas, cheguei no Residencial tomando uma garrafa de vinho, com uma camiseta toda rasgada, um chinelo velho quebrado. Era final de semana e tinha pouca gente, me acolheram lĂĄ mesmo eu estando muito louco. Falaram pra eu ficar num quarto pra desintoxicar, e quando tivesse melhor me apresentariam as pessoas e o lugar. Quando ele fechou a porta do quarto e saiu, me deu um surto, um desespero de dizer “eu nĂŁo posso ficar aqui, eu preciso da minha cocaĂ­na, preciso da droga, preciso da bebida, tiraram minha garrafa de vinho, nĂŁo podiam ter tirado ela, vou fazer um BO contra ele, e vou na delegacia”, louco nĂ©?


SaĂ­ do quarto, comecei a chutar o portĂŁo, vou pra outro lado, pulo janela, nĂŁo sei o que. AĂ­ minha mĂŁe chega lĂĄ, e o Tulio coordenador do espaço fala “esse menino tĂĄ precisando ir pro hospital agora.” Minha mĂŁe nĂŁo sabia o que fazer, nĂ©, mas me levou
 Chegamos lĂĄ, eu desmaio na recepção, depois eu tive uma convulsĂŁo tambĂ©m. Se eu tivesse ficado trancado naquele quarto do Residencial, provavelmente eu teria
 teria dado ruim, um pouco de ruim. DaĂ­ eu fico no Samaritano
 NĂŁo sei, Ă© muito confusa essa Ă©poca pra mim.


Cosme - Tudo bem, nĂŁo precisa se preocupar em falar na ordem. Eu vou voltar atrĂĄs um pouquinho numa parte que me interessa saber, que Ă© esse perĂ­odo em que vocĂȘ estava em casa antes do Residencial. Nesse perĂ­odo, eu vou pra sua casa durante a semana, algumas vezes;


teve um tanto de eu tentar negociar com vocĂȘ pra ir presencialmente pra consultas com Rosa e com Yuri, e a gente conseguiu fazer isso vez ou outra, mas a maioria foi online. E nessa Ă©poca a gente aprendeu a passar tempo juntos; eu pensava “tĂĄ bom, a gente tĂĄ se conhecendo, como que a gente faz pra passar tempo juntos?”


Tem uma lembrança muito forte pra mim, do dia que vocĂȘ nĂŁo atendia celular pra ninguĂ©m, e aĂ­ Rosa pede pra sua mĂŁe ir pra sua casa ver se vocĂȘ tĂĄ bem, porque ela tem a chave. E calhou de ser no dia e horĂĄrio que eu ia te encontrar, entĂŁo quando sua mĂŁe me manda mensagem pedindo pra encontrar ela lĂĄ, porque ela tava com medo de encontrar ele muito ruim e nĂŁo saber lidar, eu falo que tĂŽ a caminho jĂĄ e encontro vocĂȘ e sua mĂŁe na sua casa - vocĂȘ putasso porque sua mĂŁe entrou na sua casa, dizendo “foda-se, eu nĂŁo quero saber se Ă© pra me proteger, se Ă© pela minha segurança, minha saĂșde. Essa Ă© minha casa, Ă© uma merda vocĂȘ entrar assim, sem minha autorização.”


Quando eu chego vocĂȘ fica puto comigo tambĂ©m, “nĂŁo quero saber de porra de AT, deixa eu usar minha droga, deixa eu morrer, deixa eu me fuder sozinho, me deixa, me deixa afundar aqui nas minhas prĂłprias mĂĄgoas.” VocĂȘ falou praticamente com essas palavras. AĂ­ eu comecei com uma postura apaziguadora, mas eu percebi que vocĂȘ tava tĂŁo puto e indisponĂ­vel pra isso que pensei “quer saber, ele quer tretar, ele quer discutir relação, entĂŁo vamos ter uma DR.”


A gente ainda hĂĄ pouquĂ­ssimo tempo se conhecendo, e eu falei “porra, eu nĂŁo quero saber se vocĂȘ quer morrer ou nĂŁo. Foda-se o que vocĂȘ quer fazer, que vocĂȘ quer se afundar. A sua mĂŁe, eu e algumas outras pessoas estĂŁo interessadas em ajudar vocĂȘ a entender a vida como uma coisa possĂ­vel. VocĂȘ querendo ou nĂŁo, tem gente que acredita em vocĂȘ. EntĂŁo engole essa porra.” E aĂ­ vocĂȘ ainda tava meio puto, mas vocĂȘ ficou meio confuso tambĂ©m, falou “Como assim tem gente que acredita, tem gente que quer estar junto?”


E eu acho que foi um momento que vocĂȘ deu uma respirada. Pra mim aquele dia ficou marcado como o dia que a gente pensou “ah, talvez a gente consiga se entender aqui, do nosso jeitinho.” Tanto Ă© que de lĂĄ pra cĂĄ, nossas DRs sĂŁo intensas e maravilhosas.


Floriano - Adoro, adoro



Cosme - Ali foi o momento onde eu pude te dizer que nĂŁo queria saber o que vocĂȘ tava usando ou deixando de usar, o que me interessava era saber o que vocĂȘ tem tido vontade e conseguido fazer em paralelo a isso. TambĂ©m foi muito marcante porque eu gritei e xinguei e apontei o dedo na sua cara, na frente da tua mĂŁe. E pra minha sorte ela conseguiu entender que a intervenção pra aquele momento era essa



Acho que aquele mĂȘs e pouco de te acompanhar em casa foi muito virado pra ideia de “o que dĂĄ pra fazer agora? Pode ser muito pouco ou quase nada, mas o que tĂĄ dando pra fazer? Sentar e conversar? Dar uma volta com os cachorros? Tomar um cafĂ© na padaria? Ficar sentado no chĂŁo montando quebra-cabeça? Suportar a presença um do outro
 Com vocĂȘ com uma cerveja na mĂŁo? Com droga escondida na caixa de quebra-cabeça?” E a gente teve algumas dessas experiĂȘncias.


Pra mim foi muito marcante, foi o momento onde eu tive a oportunidade de te mostrar o quanto eu tava disposto a estar ali com vocĂȘ, da forma que fosse. Como foi pra vocĂȘ essa Ă©poca?


Floriano - Confusa, muito confusa. Tanto que essa primeira DR que vocĂȘ relatou, que parece que foi feia mesmo e a gente tretou feio, eu tenho zero lembranças, de verdade. NĂŁo Ă© que eu tĂŽ fugindo pra nĂŁo assumir a culpa
 Eu devo ter te xingado, falado baixaria, sido escroto pra caralho. Mas nĂŁo lembro disso, nĂŁo lembro da minha mĂŁe
 NĂŁo vou me querer justificar, mas Ă© que jĂĄ teve situaçÔes de eu estar transando com alguĂ©m, tĂŽ num momento Ă­ntimo, e ela entra do nada
 Tem uma questĂŁo da invasĂŁo aĂ­, que deve ter tambĂ©m esbarrado com a loucura que eu tava, e explodi.


Eu nĂŁo lembro de brigar com ela, nem do que eu tava fazendo sozinho antes dela chegar. NĂŁo lembro de vocĂȘ chegando, da gente brigando. E do resto tambĂ©m, Ă© muito louco explicar - eu nĂŁo sabia se tinham passado dez dias ou uma noite, porque a noite virava dia, que virava noite, que virava dia
 E droga, droga, droga, e cocaĂ­na, e depois entra o K9, e aĂ­ o crack, e aĂ­ eu vou experimentando cada vez mais coisas, aĂ­ eu nĂŁo sei mais se passou trĂȘs dias
 DaĂ­ a gente marca numa quarta, e eu jurando que hoje Ă© domingo ainda, e aĂ­ de repente “o que o Cosme tĂĄ fazendo aqui batendo na porta, hoje Ă© domingo, a gente marcou quarta.”


Foi um perĂ­odo que eu tava muito desorganizado, muito confuso
 Mas muito! E foi um momento que eu falei “gente, chega.” Porque tava horrĂ­vel sĂłbrio, mas tava horrĂ­vel antes tambĂ©m. Eu queria ter lembrança dessa nossa DR inicial. Os poucos momentos onde eu conseguia dormir depois de fumar K9 e acordava sĂłbrio, era quando eu me entupia de comer e vomitava. Às vezes eram umas sessĂ”es de dez vĂŽmitos de uma vez, depois ia pras drogas, pra variar. “Redução de danos”, nĂ©? A gente cheira aqui, vomita ali
 EntĂŁo eu tava completamente refĂ©m desses dois orgasmos: da droga e da comida - a bulimia, a anorexia. E isso me dominou de uma forma que eu me tornei isso, esse conglomerado.


E eu nĂŁo era mais uma pessoa. Eu nĂŁo consigo nĂŁo me enxergar naquela Ă©poca como uma pessoa. EntĂŁo pensando agora pela primeira vez: vocĂȘ ter enxergado e falado “foda-se o que vocĂȘ quer, tem alguĂ©m que se importa, tem gente que quer que vocĂȘ saiba que dia Ă© hoje, se Ă© dia ou noite, quer que vocĂȘ pare de vomitar” - porque eu fazia questĂŁo de nĂŁo conseguir esconder nada de ninguĂ©m, tudo espalhado pela casa - pensando agora, talvez isso tenha mexido comigo.


Tipo “uĂ©, mas eu jĂĄ desisti de mim, quem que Ă© esse louco que acabou de chegar na minha vida e tĂĄ acreditando em mim? Quem ele acha que Ă© pra se meter? Eu jĂĄ decidi que eu vou me matar, ele tĂĄ achando que eu mereço viver? Vai se fuder! Mano, eu jĂĄ escolhi morrer, que que esse louco aĂ­ vai interferir, nem conheço.”

Tipo “uĂ©, mas eu jĂĄ desisti de mim, quem que Ă© esse louco que acabou de chegar na minha vida e tĂĄ acreditando em mim? Quem ele acha que Ă© pra se meter? Eu jĂĄ decidi que eu vou me matar, ele tĂĄ achando que eu mereço viver? Vai se fuder! Mano, eu jĂĄ escolhi morrer, que que esse louco aĂ­ vai interferir, nem conheço.”


Mas foi um perĂ­odo que pra mim Ă© um lapso, Ă© como se fosse uma coisa sĂł. NĂŁo tem como discernir entre os dias, foi uma coisa contĂ­nua. Se eu nĂŁo tava comendo e vomitando, eu tava cheirando e bebendo e fumando. E foi um looping. Mas mexeu sim isso de ver vocĂȘ como alguĂ©m que acreditou, foi lĂĄ e falou “nĂŁo, eu nĂŁo vou desistir, pode me xingar, pode fazer o que vocĂȘ quiser, eu nĂŁo vou desistir.” Acho que eu devo ter pensado “esse louco achando que vai me salvar, filha da puta arrogante.”


Cosme - E realmente, do meu lado foi muito essa sensação de ser um período prolongado de bancar, de sustentar
 “Sigo aqui, sigo aqui.” Mesmo às vezes sem saber exatamente de forma muito explícita ou concreta do que fazer naquele momento, o estar ali.


Floriano - Eu acho que fui me apegando muito a vocĂȘ naqueles momentos, nessa fase. Mas eu nĂŁo tenho muita lembrança concreta. Foi um momento que eu jĂĄ nĂŁo tinha amizades - todo mundo jĂĄ tinha, com toda a razĂŁo do mundo, parado de me chamar pra sair ou ir atrĂĄs de mim. Eu sĂł tinha amizades de rolĂȘ, de droga, mas eu estava tĂŁo fraco e tĂŁo sem grana, usando tudo pra comida, pra vomitar, pra droga e ĂĄlcool, que eu nĂŁo tinha dinheiro pra sair. EntĂŁo eu usava em casa, e tinha sempre um grupinho dos amigos que usava tambĂ©m, que cada um levava o seu e a gente ficava lĂĄ curtindo um som e se matando de droga.


Foi um perĂ­odo muito confuso, porque eu fui percebendo que nĂŁo era amizade aquilo, era um culto satĂąnico
 Sei lĂĄ, era uma roleta russa. E os meus outros amigos jĂĄ tinham parado de falar comigo, com razĂŁo, e vocĂȘ lĂĄ insistindo. Mas isso tudo eu tĂŽ pensando agora, nĂŁo tinha pensado antes.


Acho que de uma forma meio sem querer, eu tenha te provocado muito nesse ponto, pra ver se vocĂȘ bancava mesmo. Deixar vocĂȘ ver a droga na caixa do quebra-cabeça, entrar na minha casa cheio de garrafa por aĂ­, vĂŽmito na privada
 “Vamo ver atĂ© onde esse filho da puta aguenta. Certeza que daqui a pouco ele vai
” Sei lĂĄ, tĂŽ pensando agora, pode nĂŁo ter nada a ver. Realmente Ă© uma Ă©poca que Ă© um lapso. Mas que eu daria tudo pra ver a nossa briga, daria!


Cosme - É, a gente se xingou
 Eu falei “vocĂȘ vai ser um babaca filho da puta que vai ficar entupindo o cu de droga?” E atĂ© debochei, “olha eu aqui, usando a minha droga, eu quero morrer, olha sĂł! Vai se foder, caralho! Olha o meu complexo de coitado, que ninguĂ©m se importa comigo
 Mentira caralho, aqui tem gente que se importa.”


Floriano - Foi nesse nível? Que loucura



Cosme - Mas agora pensando na transição pros tempos de Residencial - jĂĄ tem uns bons meses no total, mas pensando naquele primeiro mĂȘs, as sensaçÔes que te atravessaram ali. E no meio teve um perĂ­odo muito curto que vocĂȘ voltou pra casa, pra depois voltar pro Residencial.


Floriano - Que foi quando eu tive a overdose



Cosme - 
 o infarto, e internação no São Camilo. E aí a gente entra na fase mais prolongada de Residencial: festa de final de ano, internação na Clínica Tempus, e depois internação na Clínica Mansão.


Mas começando assim: vocĂȘ foi pra um residencial terapĂȘutico
 Como que foi a sensação desse primeiro mĂȘs, da volta pra casa, da UTI no SĂŁo Camilo, e aĂ­ a volta pro Residencial? Um parĂȘnteses: eu lembro de vocĂȘ, nesse primeiro mĂȘs de Residencial, tratando o espaço como as internaçÔes anteriores: “eu vou fazer o teatro, passar um mĂȘs, e voltar pra casa”.


Floriano - Por um lado, eu jĂĄ queria encerrar tudo. Eu queria, sem querer, um dia nĂŁo acordar - sem querer, querendo. Na overdose eu tava com o JoĂŁo, meu ex, eu senti os mesmos sintomas das outras overdoses, entĂŁo eu sabia o que era. Foi um momento que pensei “continuo a usar a droga e vamos ver atĂ© onde vai, ou eu paro?” Eu ainda dei mais uns tiros, bebi mais, aĂ­ peguei o oxĂ­metro que eu sempre carrego pras crises de pĂąnico. Minha oxigenação tava uns 60, algo assim muito baixo, e eu tava muito pleno, muito de boa. Eu pensei “caramba, morrer Ă© tĂŁo tranquilo
 Que paz eu tĂŽ sentindo em morrer”.


Quando eu comecei a ter espasmo e visĂŁo turva, e meu corpo começou a dar um tremelique, eu comecei a realmente perceber o que tava acontecendo, meu corpo tava por um triz. Eu saĂ­ da brisa da delĂ­cia da overdose de pensar â€œĂ© por aqui que eu fico
 NĂŁo quero mais, gente, Ă© mais tranquilo morrer.” Quando começou a ficar forte, e faltando muito pouco pra eu morrer, o instinto de sobrevivĂȘncia falou com tudo. E aĂ­ eu falei “vamos pro hospital.”


João não queria que eu fosse, porque ele sabia que eu ia ser internado de novo. Ele falou pra gente tentar cuidar ali mesmo, e eu falei que ia pro hospital com ou sem ele. Tentei chamar um Uber mas não conseguia porque meu corpo tremia, a minha visão tava turva
 E milagrosamente o universo colocou um carro parado ali na frente, nem perguntei nada, entrei no carro com João protestando e falei “moço, me leva pro hospital”, e ele me levou.


Os mĂ©dicos fizeram lĂĄ o que tinha que fazer, e eu lembro de acordar depois e ver a Rosa, e eu com essa coisa de internação na cabeça. EntĂŁo perguntei pra ela “o que a gente tĂĄ pensando pros prĂłximos dias, quando eu tiver alta?” E ela jĂĄ respondeu “ah meu querido, vocĂȘ acha que vocĂȘ vai pra casa? VocĂȘ nĂŁo vai nĂŁo!” AĂ­ o JoĂŁo ficou puto comigo porque eu fui internado de novo, mas eu falei “mano, era isso ou entĂŁo eu tava morto”. Eu tava aceitando muito bem morrer, mas quando começou a dar sinais mesmo, o instinto de sobrevivĂȘncia falou muito alto.


Aí eu fui pro Residencial, com esse intuito de fingir, fazer um fake, pra voltar pra casa e usar mais. Eu tava nesse período ainda de pensar “não quero parar mas a psiquiatra me mandou, minha família internou, então não tenho escolha
 Vamos fingir que tá tudo bonitinho.”


E vocĂȘ me acompanhando em tudo, nĂ©? Sempre, coitado do menino. No começo eu fiquei no Residencial sem pretensĂŁo nenhuma, e depois teve a confraternização de Natal, que eu sabia que ia dar ruim - e eu nĂŁo queria que desse ruim, justamente pra nĂŁo postergar minha alta, nĂŁo era por preocupação com meu tratamento. Eu queria estar fora no dia da festa, falei “vou pra casa da minha mĂŁe, vou no cinema, faço qualquer coisa
 Gente, nĂŁo vai dar certo, eu nĂŁo trabalho bem com muvuca, com pizza Ă  vontade, pizza Ă© meu ponto fraco
” E eles dizendo “nĂŁo, relaxa, vai ser sĂł os familiares, a gente vai comer uma pizza.”


Eu fui imaginando a mesa grande, cada um sentado ali comendo sua pizza, tomando um refri de boa. AĂ­ vocĂȘ viu nĂ©, a festa que tava
 Parecendo uma micareta da Ivete Sangalo, e pizza Ă  vontade. DaĂ­ primeiro eu saciei a minha fome bulĂ­mica, comi e vomitei acho que

mais de 100 pedaços, sei lĂĄ. Depois, nĂŁo o suficiente, peguei uma garrafa de vodka que tinha comprado e escondido, e falei â€œĂ© agora”. Tava o pessoal que servia a pizza num entra e sai na porta da frente, caminhonete na frente, e numa dessas meu filho
 SĂł fui.


E eu lembro que o Camilo, minha referĂȘncia no Residencial, foi atrĂĄs de mim. Eu falei “Camilo, confia em mim, eu vou fazer merda pra caralho mas eu volto amanhĂŁ.” E ele nĂŁo conseguiu me acompanhar. Fui, fiquei a noite inteira fora, fiz merda pra caralho, vocĂȘ jĂĄ sabe
 Muita merda, me droguei muito. Mas fiz o que eu tinha prometido, voltei no outro dia, e ainda com dois sacos de um quilo de bombom, e umas plantas pra dar de presente pra eles. E um suco de uva e vĂĄrios molhos de salada. Tipo, por quĂȘ? O Tulio que me lembrou isso depois. [risos]


E obviamente a remoção me levou, eu jå sabia, né? Nem questionei, fui bonzinho.


Cosme - E aĂ­ na ClĂ­nica Tempus, vocĂȘ vai poder falar mais se quiser, mas do meu ponto de vista foi sĂł um perĂ­odo bem merda de reclusĂŁo em que a preocupação era desintoxicar, mesmo sendo em um lugar horrĂ­vel. E que pra alĂ©m disso, nĂŁo tem muita explicação terapĂȘutica daquele espaço existir. Mas o que eu ia perguntar pra vocĂȘ sobre esse perĂ­odo da volta pro Residencial, aĂ­ a festa e a Tempus
 Qual vocĂȘ acha que foi a relevĂąncia do meu papel de acompanhante terapĂȘutico?


Floriano - Muito grande. Porque tem essa coisa do AT estar meio que entre o psicĂłlogo, entre a força amiga, tem essa coisa toda. A equipe sabe que tem coisas que eu consigo confidenciar mais com vocĂȘ, e ao mesmo tempo me perguntando se eu tĂŽ passando os limites ou nĂŁo - e mesmo Ă s vezes sabendo que eu vou me foder porque eu tĂŽ te contando algo que vocĂȘ vai ter que eticamente contar pro resto da equipe.


O teu papel, a importĂąncia durante esse processo, foi de nĂŁo me sentir abandonado. Quando eu acordei na Tempus - porque me doparam quando eu cheguei lĂĄ -, tinha uma sĂ©rie de protocolos, e dentro disso eu nĂŁo podia receber visita por cinco dias, nĂŁo podia receber ligação por cinco dias. Na minha cabeça eu pensava “certeza que agora fodeu, fugi no Natal, minha famĂ­lia nĂŁo vai mais falar comigo, jĂĄ nĂŁo tenho amigos, Rosa vai desistir do meu caso, Tulio e Camilo nunca vĂŁo me aceitar de volta.” Eu jĂĄ tava engolindo o luto de que eu queria voltar pro Residencial mas imaginar que nĂŁo voltaria, porque Tulio e Camilo nĂŁo iam me aceitar. AtĂ© escrevi uma cartinha de agradecimento e tal. Mas o que me manteve muito forte foi ter a certeza de que vocĂȘ ia aparecer em algum momento.


NĂŁo sei porquĂȘ, de algum modo eu sabia que vocĂȘ ia aparecer. E vocĂȘ apareceu. NĂŁo sei, eu acho que a gente construiu nesse tempo um vĂ­nculo, que atĂ© Ă© meio perigoso, de confiança. Porque eu nunca confio em ninguĂ©m, atĂ© gente da minha famĂ­lia. Eu sempre acho que sou um saco, a minha autoestima Ă© uma bosta
 E sei lĂĄ, as pessoas vĂŁo cansar, nĂŁo vĂŁo me aguentar. E atĂ© pensando, fazendo o link com o que eu falei antes de ir testando seus limites, eu acho que eu faço muito isso. E as pessoas nĂŁo aguentam, obviamente. NinguĂ©m precisa aguentar um idiota, filha da puta, drogado - e vocĂȘ aguentou.


EntĂŁo no meio desse campo devastado, de certeza de que todo mundo tinha desistido do meu caso, eu tinha certeza que uma pessoa nĂŁo tinha, que ia aparecer vocĂȘ lĂĄ, e sem julgamentos morais. Isso me deu força, porque foram cinco dias sem comunicação, mas foram cinco dias que passaram como cinco anos
 Porque eu pensava “perdi minha famĂ­lia, perdi minha grana, perdi os amigos, perdi a psiquiatra, perdi o melhor lugar do mundo que estava me acolhendo super bem que era o Residencial, mas tem o Cosme, eu sei que ele nĂŁo vai largar a minha mĂŁo.”


A gente passou por tanta coisa
 EntĂŁo eu acho que vocĂȘ ocupa um papel meio de trazer esperança - de criar esperança, nĂŁo Ă© nem “trazer”. Durante esses meses em que a gente foi trabalhando juntos, atĂ© nas DRs, a “construção” de uma esperança que atĂ© entĂŁo eu nĂŁo conhecia. E foi atravĂ©s dessa esperança que a gente construiu junto, que vocĂȘ construiu, que eu consegui me manter minimamente sĂŁo naqueles 5 dias na Tempus sem comunicação. Porque eu sabia que vocĂȘ me ensinou a ter esperança, e eu sabia que vocĂȘ ia estar lĂĄ em algum momento.


Cosme - Uau
 Caralho. Que bom escutar isso. Eu fico muito feliz, e me emociona pensar que eu pude te oferecer um pouco disso.


Floriano - Muito, vocĂȘ nĂŁo sabe o conforto que era. Foi terrĂ­vel, eu tinha certeza que minha mĂŁe nĂŁo ia mais falar comigo, nem minha irmĂŁ (como de fato ficou um tempo sem falar). Eu nunca tive esperança, entĂŁo nĂŁo foi nem a esperança conhecida, foi uma esperança construĂ­da no nosso trabalho, que se manifestou muito forte naquele momento. Acho que isso me deu força para aguentar esses 5 dias. SenĂŁo eu nĂŁo teria aguentado.


Cosme - Que bom vocĂȘ aguentou, e que tamo aqui. E aĂ­ teve o retorno pro Residencial, e teve aquele fatĂ­dico dia que o JoĂŁo brigou com vocĂȘ, vocĂȘ ficou malzĂŁo, vocĂȘ desabafou com a equipe e foi parar na ClĂ­nica MansĂŁo. E eu lembro de vocĂȘ ter ficado bem puto com todos nĂłs da equipe, e que te dei razĂŁo em ficar puto. Teve esse tempo na MansĂŁo, aĂ­ o retorno pro Residencial, e pro lugar onde a gente se encontra agora do processo todo.


Queria saber se vocĂȘ quer e consegue falar sobre essa transição, esse sentimento de frustração, revolta, e angĂșstia do tempo na MansĂŁo, e como vocĂȘ foi encarando isso no retorno pro Residencial - porque foi um momento bem delicado.


Floriano - Eu me senti traĂ­do, porque Camilo e Tulio sempre batem na tecla: “vocĂȘ tem que confiar pra pedir ajuda, antes que aconteça alguma coisa. Pede ajuda quando vocĂȘ nĂŁo estiver bem.” E eu cheguei, eu estava muito mal, cheguei chorando. Queria uma ajuda, um consolo, uma palavra, uma conversa do tipo “calma, mas como Ă© que foi essa conversa com JoĂŁo?” Qualquer coisa
 “Para de sofrer por esse bosta, vai se foder.”


O que eu recebi foi “vai pegar um copo de ĂĄgua que eu vou te dar Rivotril.” TĂĄ, eu ia pedir Rivotril de qualquer forma
 “EntĂŁo agora vai esfriar a cabeça, toma um banho.” E eu imaginei “ok, uma medida terapĂȘutica, quando eu sair do banho a gente continua conversando.” Quando saĂ­ do banho de toalha, tinha trĂȘs enfermeiros me esperando
 Eu juro que eu nĂŁo acreditei, fiquei passado. Quando eu entendi que realmente eu ia ser removido, eu falei “deixa eu pelo menos pegar meus livros e alguns maços de cigarro.” E o Camilo falou que no dia seguinte a Rosa ia lĂĄ, ela vendo que eu tava bem jĂĄ assinava minha alta, no mĂĄximo depois de amanhĂŁ. Eu confiei nisso, e fiquei 23 dias lĂĄ esperando a tal da alta.


Mas foi um processo muito bom, muito diferente da remoção da Tempus, porque pra Tempus realmente eu fiz merda. Nessa eu tava de cabeça erguida, com a certeza de que eu nĂŁo tinha feito merda nenhuma, e que eu nĂŁo confiava em como a equipe conduziu. Hoje em dia eu consigo flexibilizar, no sentido de pensar que eu tinha histĂłrico de fuga recente, cheguei muito abalado, deixei entrar o psicĂłlogo que eu nĂŁo tinha contato nenhum na minha caverna, ele se assustou e acionou a remoção - atĂ© passo esse pano. Mas nĂŁo pro outro cara que fingiu que eu tentei subir com a sacola cheia de vidro; uma peça de vidro que quebrou quando a gente tava na rua, que eu avisei e tentei entregar pra eles quando cheguei no Residencial, mas falaram que depois resolveriam isso. Esse outro cara depois falou que eu tentei subir com a sacola dos cacos quebrados para me cortar, e que ele que teve que ir atrĂĄs de mim pra fazer revista
 Isso eu nunca engoli atĂ© hoje. O Tulio e o Camilo prometeram que teria uma conversa, nunca teve atĂ© hoje. TambĂ©m jĂĄ perdeu o timing, jĂĄ nĂŁo faz sentido.


EntĂŁo acho que foi mal conduzido, porque apesar de ter sido um momento que vocĂȘs perceberam que precisavam se organizar enquanto equipe, por isso levou 23 dias
 Ok, repensar combinados e contrato terapĂȘutico. Mas e os dois dias que o Camilo prometeu? Euestava sem cigarro, sem livro, sem roupa. Mas olha, foi um perĂ­odo bom, porque eu estava sem culpa nenhuma. NĂŁo fiz nada, eu sabia que nĂŁo tinha feito nada de errado, e que eu poderia contar com o seu apoio de alguma forma. Porque eu falei “gente, Ă© tĂŁo injusto isso que estĂĄ acontecendo, que eu pago para ver o Cosme concordar com isso.” O cara que mentiu sobre os cacos na bolsa, e o Camilo falando que eu sĂł ia ficar dois dias no mĂĄximo e me deixando sem cigarro, sem roupa, sem livro
 Acho que foi conduzido de uma forma bem equivocada, a promessa de que ia ter a reuniĂŁo que nunca rolou atĂ© hoje.


Mas no que te envolve, eu fiquei muito com uma frase que acho que foi a Rosa que falou. Se referindo a ela, o Camilo e o Tulio, falou que eles sĂŁo mais durĂ”es em questĂ”es de combinados, de regras e tal, e que vocĂȘ tem um outro olhar que complementa, mais humano, onde vocĂȘ fala “vocĂȘs estĂŁo olhando pro fenĂŽmeno da droga, mas pera aĂ­, tem um Floriano aqui, gente! Vamos colocar o Floriano um pouquinho na plataforma, no protagonismo?” Porque vocĂȘ fazia muito isso, desviava o holofote que tava em fuga, pizza, bulimia, droga
 E vocĂȘ sempre era aquele que dizia “gente, o Floriano estĂĄ aqui.”


Eu tava com a consciĂȘncia limpa e tranquila, vivendo dias Ăłtimos lĂĄ, porque era um resort de luxo
 Trevosinho, do jeito que eu gosto - quando acabava a luz era maravilhoso, amava. Foram dias Ăłtimos. Tinha esteira, tinha tudo pra fazer lĂĄ. Mas eu tava bem puto com isso. E eu acho que vocĂȘ entra tambĂ©m como uma pessoa que tava junto no dia do vidro quebrado
 Enfim. Eu realmente nĂŁo sei como foi conduzido entre vocĂȘs da equipe. A Ășnica coisa que eu sei Ă© que foi se arrastando, e 2 dias se tornaram 23.


Mas eu sinto que eu me apoio muito na sua consciĂȘncia, na sua visĂŁo das coisas. Porque apesar de vocĂȘ passar muito pano pra mim no sentido de coisas leves, quando o bagulho Ă© sĂ©rio vocĂȘ leva pra equipe. Se eu virar agora e falar “Cosme, fica aĂ­ rapidĂŁo que eu vou escondido cheirar um pó”, eu sei que vocĂȘ vai levar pra equipe. Mas eu confio tambĂ©m muito no sentido humano da coisa. E acho que talvez a função AT atĂ© traga isso, seja diferente.

Com Rosa, a Ășnica troca que a gente tem Ă© remĂ©dios, como tĂĄ a semana, depressĂŁo, borderline, nĂŁo sei o que. Camilo e o Tulio jĂĄ Ă© mais questĂ”es sobre o Residencial, procedimentos, gerenciamentos. E vocĂȘ tĂĄ num meio termo que nĂŁo Ă© 100% bom, ele Ă© bem perigoso
 Mas eu sei que vocĂȘ nĂŁo tĂĄ nem pra lĂĄ nem pra cĂĄ. Eu sei que vocĂȘ tem uma visĂŁo diferente, que vocĂȘ consegue enxergar melhor outras coisas, outros aspectos, mas vocĂȘ nĂŁo rompe com a equipe no sentido Ă©tico da coisa. E aĂ­ cabe a seja quem for o - Ă© “acompanhado” que fala? - que seja, o fudido da vez que tĂĄ sendo atendido por vocĂȘ; cabe a ele saber lidar com isso, porque se mistura. Tanto que recentemente eu falei “porra mano, eu tava apaixonado por vocĂȘ.” A gente trabalhou e beleza, ficou tudo bem. Eu pensei tambĂ©m em outros momentos “pera, o que Ă© isso? É uma amizade? Que porra Ă© essa?”


VocĂȘ sabe que tem que ter uma delicadeza aĂ­ pra mostrar o que Ă©, que ao mesmo tempo nĂŁo existe por palavras. Vai se transformando atravĂ©s dos encontros, das coisas que vĂŁo acontecendo. Tipo quando vocĂȘ tem que dar um “Floriano, pisa no freio”, e eu penso “tĂĄ, entendi, aqui jĂĄ Ă© demais, volta um pouco.” É essa coisa que eu que mais confundo, nĂŁo falando sĂł por mim, mas todo mundo lĂĄ do Residencial sente isso com seus respectivos ATs
 A gente se pergunta “o que um AT faz?”


É um amigo, mas ao mesmo tempo paga, mas ao mesmo tempo vocĂȘ fala a sua vida inteira, mas nĂŁo Ă© um psicĂłlogo
 Todo mundo tem essa dĂșvida. O que Ă© isso? E tem muito caso de mistura, de gente que fala que se apaixonou
 AtĂ© te contei do caso de um cara que namorou a AT dele, eles encerraram o acompanhamento, ele procurou outro AT pra poder namorar com ela. EntĂŁo meio que mistura, mas eu acho que hoje em dia tĂĄ bem claro
 Que nada estĂĄ claro. [risos]


Cosme - Olha só que chique fechar com essa frase! Då até vontade de encerrar esse papo com ela.


Mas pra nĂŁo deixar de falar da minha minha percepção dessa parte, que eu acho que Ă© bem importante tambĂ©m, apesar de ter ficado muito poĂ©tico o seu final de fala
 Eu queria falar um pouco dessa fase na Tempus, na MansĂŁo, e os tempos recentes atĂ© agora.


Na Tempus, eu fiquei muito triste de te ver lĂĄ. Muito mesmo. E o meu sentimento estando lĂĄ com vocĂȘ era: “o que eu consigo propor de forma realista pro Floriano agora, que seja no sentido do esperançar? Sem eu ser hipĂłcrita?” A minha sorte Ă© que a gente jĂĄ tinha antes falado sobre algumas coisas que a gente queria fazer e que lĂĄ dava, tipo ver filme. Pode parecer uma coisa super besta, sĂł que o fato de ter uma TV com Netflix lĂĄ e ter filme do AlmodĂłvar na Netflix foi... Uau! Foi alguma coisa, num terreno baldio de pouquĂ­ssimas coisas disponĂ­veis.


E foi foda pra mim ver a forma que a equipe da internação conduzia ali. Parece que rola um descompromisso, sabe? Ter que ficar pedindo, reivindicando coisa que Ă© direito bĂĄsico
 Sei lĂĄ. E no meio disso a gente achando respiros. Eu dei muita risada naquele dia que vocĂȘ saiu comigo pra sentar no banquinho de frente pra rua, e mandou um ĂĄudio no grupo pra celebrar o aniversĂĄrio do seu sobrinho. Nossa, foi muito bom, vocĂȘ deu um gritĂŁo animado que assustou o segurança da clĂ­nica, e eu passei mal de rir.


Acho que no geral, nesse tempo que a gente tĂĄ junto, tem vĂĄrios desses momentozinhos recheando os encontros, de alguma risada aleatĂłria, algum escĂąndalo, etc. Eu acho que Ă© muito legal e faz parte da relação, faz parte do trabalho. É muito foda. E aĂ­, conseguir recuperar mesmo que sĂł um pouquinho disso, dentro daquele contexto da Tempus, acho que foi bem importante. Pelo menos pra mim. No meu sentimento de profissional, de trabalhador, de acompanhante, de falar “eu nĂŁo posso aceitar que nĂŁo seja nada, sabe? Aqui nĂŁo Ă© um espaço pra gente sĂł se render. A gente precisa achar alguma coisa.”


E aĂ­ vocĂȘ volta pro Residencial, a gente sustentando muito esse discurso de “Pede ajuda, aciona, desabafa, fala”, e pouco tempo depois acontece a remoção pra MansĂŁo, nĂ©? DĂĄ pra entender o raciocĂ­nio da equipe do Residencial pra acionar a remoção, mas tambĂ©m dĂĄ pra entender as frustraçÔes que ficam pra vocĂȘ. Ali eu pensei “Cacete, a gente tĂĄ sustentando esse discurso o tempo todo dele desabafar, e quando ele finalmente desabafa, se torna uma remoção logo de cara.” Ao mesmo tempo, eu tava pensando “puts, mas se a galera na hora avaliou que tinha riscos suficientes, dados os eventos e crises recentes, era o que tinha pra fazer.”


EntĂŁo essa avaliação inicial aconteceu, mas aĂ­ teve o prolongamento do seu tempo na MansĂŁo, que tambĂ©m foi uma coisa que me incomodou. Eu falava pra equipe “qual Ă© o combinado com o Floriano? Sim, tem questĂ”es que a gente tĂĄ precisando organizar aqui, mas serĂĄ que a gente consegue fazer isso sem desrespeitar o combinado? Nem que fosse pra ele voltar pro Residencial, e aĂ­ no meio dessas grandes mudanças no tratamento que a gente tĂĄ propondo, se a gente perceber que ele nĂŁo tĂĄ legal de novo, ele volta para a internação.” Mas aĂ­ tambĂ©m teve uma avaliação conjunta, do pessoal falar “cara, eu acho que sĂŁo mudanças grandes o suficiente que a gente tĂĄ com muito medo de como o Floriano vai lidar. Muito medo mesmo, assim, nu e cru. E esse medo Ă© dele se colocar no mesmo risco que ele se colocou recentemente, de quase morrer, entĂŁo a gente vai preferir estender, desrespeitar o acordo inicial, mas entendendo que existe uma importĂąncia muito, muito grande”



Floriano - 
 só esqueceram do detalhe de me avisar desse prolongamento, mas tudo bem.


Cosme - É... Foi um perĂ­odo meio caĂłtico, em termos da gente se organizar com vocĂȘ, com seus pais, com os combinados que iam ser construĂ­dos. Nem sei explicar muito bem o porquĂȘ, mas foi meio caĂłtico. E com um sentimento, um gosto ruim na boca de pensar que vocĂȘ tava lĂĄ esperando.


Quando a gente foi te visitar na MansĂŁo pra conversar sobre isso tudo, vocĂȘ me percebeu diferente e perguntou, “Cosme, tĂĄ tudo bem? VocĂȘ tĂĄ com uma cara de bravo.” Eu tava preocupado com como vocĂȘ tava se sentindo, com a tua situação toda, e naquele momento tambĂ©m preocupado com o escudo que vocĂȘ colocou ali, de vocĂȘ pensar “pĂŽ, os caras vacilaram comigo, agora eu tambĂ©m vou tentar manejar a situação pra nĂŁo ser atropelado por eles”. NĂŁo sei o quanto eles conseguiram perceber isso na hora, mas pra mim tava muito na cara. Eu nĂŁo falei nada no dia porque eu nĂŁo tirava a tua razĂŁo de estar daquele jeito. Por que eu iria confrontar um funcionamento defensivo num momento onde eu achava que ele era totalmente legĂ­timo, saca?


EntĂŁo eu acho que em respeito a isso eu fiquei muito em silĂȘncio naquela visita, deixei eles conduzirem. Mas tambĂ©m me permiti falar pra vocĂȘ de canto, “Floriano, tĂŽ preocupado, acho que a gente vai precisar conversar um tanto quando vocĂȘ sair daqui.” Que foi o que aconteceu nĂ©, depois a gente teve uns papos importantes sobre vocĂȘ poder falar explicitamente pra todos os envolvidos como vocĂȘ se sentiu nessa situação prolongada. Pra alguns vocĂȘ conseguiu falar um pouco mais que outros. E eu sabia que ia ficar essa marca - fiquei triste e preocupado com isso, mas tambĂ©m pensei “bom, agora Ă© fazer o que dĂĄ pra fazer pra que isso seja colocado na mesa, tirado a limpo. Pelo menos que nĂŁo fique debaixo dos panos e fingindo que tĂĄ tudo bem.”


Mas me surpreendeu bastante, me deixou bem feliz e esperançoso, quando vocĂȘ por conta prĂłpria virou um dia pra mim e disse “quer saber, eu consigo entender que tava foda pra galera na hora, fizeram a avaliação e intervenção que acharam que foi necessĂĄria... NĂŁo Ă© por isso que eu vou mandar todo mundo Ă  merda.” Acho que naquele momento, eu percebi o quanto vocĂȘ parecia estar a fim de encontrar caminhos, diferente de outras vezes.


Eu jĂĄ te falei muitas vezes que nos momentos que vocĂȘ fica mal de ter feito alguma merda de fato - que nĂŁo foi o caso dessa vez - e vai parar em alguma internação, vocĂȘ sempre vira pra mim e fala bem assim: “ah nĂŁo, dessa vez eu acho que nĂŁo tĂŽ mais me enganando, agora Ă© sincero, eu vou parar.” E eu sempre respondo “boto fĂ©, que importante vocĂȘ poder ter noção da seriedade da situação, mas calma. NĂŁo precisamos entrar nesse discurso super rĂ­gido, fatalista, de achar que agora precisa dar certo, porque se agora nĂŁo der, nunca mais dĂĄ.” Porque aĂ­ Ă© o tropeço, a armadilha. É o discurso da recaĂ­da.


E dessa vez nĂŁo, vocĂȘ nĂŁo fez merda, vocĂȘ inclusive se sentiu super injustiçado, tinha todo motivo pra falar “foda-se vocĂȘs, eu vou voltar a fazer minhas merdas aqui.” Mas nĂŁo, vocĂȘ virou e falou “ó, nĂŁo achei nada legal, mas vamos lĂĄ, o que a gente pode fazer a partir de agora?” Isso foi
 Puta, nĂŁo tenho nem palavras, foi muito marcante. EntĂŁo eu acho que esses momentos mais recentes eu tĂŽ encarando atravĂ©s desse filtro, pensando “acho que o Floriano tĂĄ vivenciando, tĂĄ sentindo, tĂĄ percebendo algumas coisas um pouquinho diferentes.”


Isso nĂŁo garante sucesso, mas isso diz de outras possibilidades de vida que voltam a existir, a ser cogitĂĄveis. E nĂŁo sĂł por insistĂȘncia nossa, mas porque vocĂȘ falou “olha sĂł, eu acho que tem mais pra fazer”. E isso Ă© bem bom. E se rolar um tropeço de vez em quando


Floriano - Vai rolar, óbvio que vai, seja com anorexia, bulimia, seja com droga
 Eu sei que vai, mas não vai ser igual aos outros.


Cosme - Nunca Ă©. E seguimos juntos.


Floriano - Seguimos.


Cosme - E eu sigo aqui te perturbando, ad infinitum.


Floriano - E eu sigo aqui te infernizando, te dando trabalho.

Diego Deneno Perez, nascido e residente em SĂŁo Paulo, capital, dedicou-se, por meio da PontifĂ­cia Universidade CatĂłlica de SĂŁo Paulo (PUC-SP), ao estudo de Sociologia durante dois anos, ao mesmo tempo em que atuava como vendedor em livrarias. Em 2015, formou-se em Gastronomia e, enquanto residiu em Cabo Frio (RJ), exerceu a profissĂŁo. Em 2016, voltou para SĂŁo Paulo, perĂ­odo em que dĂĄ inĂ­cio Ă  sua formação em Psicologia, tambĂ©m pela PUC-SP. Atualmente, concentra-se na sua especialização em PsicanĂĄlise pelo Centro de Estudos PsicanalĂ­ticos (CEP). TambĂ©m integra o grupo Rainbow, destinado ao atendimento psicolĂłgico voltado Ă  comunidade LGBTQIA+, ao mesmo tempo em que atua com questĂ”es de gĂȘnero, estudando tal fenĂŽmeno em sua complexidade histĂłrica e na forma como se apresenta nas relaçÔes familiares, sociais e institucionais.


Philip Ă© psicĂłlogo, Acompanhante TerapĂȘutico, poeta e mĂșsico.

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