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Editorial NÂș8

Atualizado: 8 de nov. de 2025

Nesse ano, comemoramos 20 anos de ABRAMD. Nossa associação nasceu não só da vontade, mas da necessidade de nos posicionarmos no campo das drogas frente as investidas proibicionistas e manicomiais, que sempre tentam marginalizar e criminalizar tudo que estå associado às substùncias psicoativas, principalmente as ilícitas.


Em cinco dĂ©cadas de Guerra as Drogas, somos testemunhas do fracasso dessa polĂ­tica, que trouxe sofrimento e violĂȘncia para usuĂĄrios, familiares, policiais e para toda população marginalizada que identificada metonimicamente como transgressora, como traficante, perde seus direitos e tem qualquer agressĂŁo contra si justificada. A chacina ocorrida neste mĂȘs no Rio de Janeiro Ă© a grande ilustração de que nĂŁo hĂĄ nem direito a prisĂŁo e defesa. As inĂșmeras crianças vĂ­timas de balas perdidas, jovens assassinados por engano quando voltavam para casa do trabalho, do estudo ou da festa, casas invadidas sem suspeita ou ordem judicial. Tudo isso Ă© fruto de uma polĂ­tica que nĂŁo gerou melhores tratamentos, nĂŁo gerou redução da disponibilidade nem do consumo de drogas, muito pelo contrĂĄrio.


No campo da clĂ­nica, o resultado tambĂ©m nĂŁo Ă© positivo. As ideias de cuidado em alta exigĂȘncia, hospitalares e em comunidades religiosas promovem a  exclusĂŁo social sem alcançarem sucessos terapĂȘuticos. Quase 80% das pessoas que saem de uma internação recai nos primeiros trĂȘs meses, das comunidades terapĂȘuticas nem temos dados pois se recusam a fazer coletas ou abrir suas portas a pesquisa. Sabe-se que a taxa de reinternação e de abandono de tratamento, porĂ©m, sĂŁo altĂ­ssimas.


Nesse contexto, essa edição da Revista Quimera pretende apresentar e discutir modelos de tratamento alternativos ao discurso proibicionista, defendendo que hå ferramentas clínicas que não bebem dessa fonte, que são eficazes e apresentam propostas muito mais alinhadas ao desenvolvimento humano.


No artigo Mulheres em grupo: um modelo de tratamento para a toxicomania, LĂ­via Maria Amaral Brito apresenta um dispositivo clĂ­nico profundamente afinado com essa perspectiva. O grupo de mulheres usuĂĄrias de drogas aparece como um espaço de elaboração e pertencimento, onde o vĂ­nculo e a palavra funcionam como ferramentas terapĂȘuticas. Vemos uma proposta de atendimento de mulheres usuĂĄrias de drogas por meio de grupos de orientação psicanalĂ­tica — uma intervenção que vai ao encontro das redes, do acolhimento e da construção de vĂ­nculos, fazendo frente ao estigma e Ă s trajetĂłrias fragilizadas.


Em Flores, dores e cores – cenas de um acompanhamento terapĂȘutico, Diego Deneno Perez e Philip Alexander GalvĂŁo McCormack nos conduzem pelas delicadas passagens do acompanhamento terapĂȘutico, onde o cotidiano Ă© o territĂłrio do encontro e da criação. Entre gestos, cores e afetos, o texto nos faz o cuidado nos espaços informais, nas pequenas negociaçÔes da vida diĂĄria, onde a presença e a escuta sustentam o sujeito em sua travessia, em um belo relato da clĂ­nica ampliada.


O texto Internação e redução de danos traz à tona uma das tensÔes mais significativas da clínica contemporùnea: existe lugar para a internação em uma clínica voltada para a ética da redução de danos? Fabio Carezzato debate os possíveis papeis da internação ao mesmo tempo que descontrói o discurso hegemÎnico sobre o protagonismo da internação no tratamento das toxicomanias.


Jå  em A ABRAMD Clínica SP e os grupos operativos, os coordenadores do nosso curso sobre grupos operativos resgatam a importùncia da dimensão grupal e institucional como ferramenta de transformação. Apresenta nossa formação no tema e a importùncia do dialogo da teoria com a pråtica na RAPS


Na sĂ©rie Drogas Be-a-Ba, fazemos uma abordagem informativa e crĂ­tica sobre a substĂąncia Cetamina, ampliando o debate sobre os usos terapĂȘuticos e recreativos de psicotrĂłpicos.

Por fim, a charge de Bira Dantas completa a crĂ­tica desse nĂșmero sobre os aspectos manicomiais da polĂ­tica de drogas.


Boa leitura!

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