Editorial NÂș8
- Revista Quimera
- 7 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de nov. de 2025
Nesse ano, comemoramos 20 anos de ABRAMD. Nossa associação nasceu nĂŁo sĂł da vontade, mas da necessidade de nos posicionarmos no campo das drogas frente as investidas proibicionistas e manicomiais, que sempre tentam marginalizar e criminalizar tudo que estĂĄ associado Ă s substĂąncias psicoativas, principalmente as ilĂcitas.
Em cinco dĂ©cadas de Guerra as Drogas, somos testemunhas do fracasso dessa polĂtica, que trouxe sofrimento e violĂȘncia para usuĂĄrios, familiares, policiais e para toda população marginalizada que identificada metonimicamente como transgressora, como traficante, perde seus direitos e tem qualquer agressĂŁo contra si justificada. A chacina ocorrida neste mĂȘs no Rio de Janeiro Ă© a grande ilustração de que nĂŁo hĂĄ nem direito a prisĂŁo e defesa. As inĂșmeras crianças vĂtimas de balas perdidas, jovens assassinados por engano quando voltavam para casa do trabalho, do estudo ou da festa, casas invadidas sem suspeita ou ordem judicial. Tudo isso Ă© fruto de uma polĂtica que nĂŁo gerou melhores tratamentos, nĂŁo gerou redução da disponibilidade nem do consumo de drogas, muito pelo contrĂĄrio.
No campo da clĂnica, o resultado tambĂ©m nĂŁo Ă© positivo. As ideias de cuidado em alta exigĂȘncia, hospitalares e em comunidades religiosas promovem a exclusĂŁo social sem alcançarem sucessos terapĂȘuticos. Quase 80% das pessoas que saem de uma internação recai nos primeiros trĂȘs meses, das comunidades terapĂȘuticas nem temos dados pois se recusam a fazer coletas ou abrir suas portas a pesquisa. Sabe-se que a taxa de reinternação e de abandono de tratamento, porĂ©m, sĂŁo altĂssimas.
Nesse contexto, essa edição da Revista Quimera pretende apresentar e discutir modelos de tratamento alternativos ao discurso proibicionista, defendendo que hĂĄ ferramentas clĂnicas que nĂŁo bebem dessa fonte, que sĂŁo eficazes e apresentam propostas muito mais alinhadas ao desenvolvimento humano.
No artigo Mulheres em grupo: um modelo de tratamento para a toxicomania, LĂvia Maria Amaral Brito apresenta um dispositivo clĂnico profundamente afinado com essa perspectiva. O grupo de mulheres usuĂĄrias de drogas aparece como um espaço de elaboração e pertencimento, onde o vĂnculo e a palavra funcionam como ferramentas terapĂȘuticas. Vemos uma proposta de atendimento de mulheres usuĂĄrias de drogas por meio de grupos de orientação psicanalĂtica â uma intervenção que vai ao encontro das redes, do acolhimento e da construção de vĂnculos, fazendo frente ao estigma e Ă s trajetĂłrias fragilizadas.
Em Flores, dores e cores â cenas de um acompanhamento terapĂȘutico, Diego Deneno Perez e Philip Alexander GalvĂŁo McCormack nos conduzem pelas delicadas passagens do acompanhamento terapĂȘutico, onde o cotidiano Ă© o territĂłrio do encontro e da criação. Entre gestos, cores e afetos, o texto nos faz o cuidado nos espaços informais, nas pequenas negociaçÔes da vida diĂĄria, onde a presença e a escuta sustentam o sujeito em sua travessia, em um belo relato da clĂnica ampliada.
O texto Internação e redução de danos traz Ă tona uma das tensĂ”es mais significativas da clĂnica contemporĂąnea: existe lugar para a internação em uma clĂnica voltada para a Ă©tica da redução de danos? Fabio Carezzato debate os possĂveis papeis da internação ao mesmo tempo que descontrĂłi o discurso hegemĂŽnico sobre o protagonismo da internação no tratamento das toxicomanias.
JĂĄ  em A ABRAMD ClĂnica SP e os grupos operativos, os coordenadores do nosso curso sobre grupos operativos resgatam a importĂąncia da dimensĂŁo grupal e institucional como ferramenta de transformação. Apresenta nossa formação no tema e a importĂąncia do dialogo da teoria com a prĂĄtica na RAPS
Na sĂ©rie Drogas Be-a-Ba, fazemos uma abordagem informativa e crĂtica sobre a substĂąncia Cetamina, ampliando o debate sobre os usos terapĂȘuticos e recreativos de psicotrĂłpicos.
Por fim, a charge de Bira Dantas completa a crĂtica desse nĂșmero sobre os aspectos manicomiais da polĂtica de drogas.
Boa leitura!